quarta-feira, 14 de outubro de 2026

 


Chico Pegado e os Festejos de Santa Luzia.

A poeira fina que se levantava do chão de Bocaina ainda guardava o cheiro de vela acesa e o eco dos hinos a Nossa Senhora da Conceição. Era dia 13 de dezembro. A festa da padroeira oficial terminara, e a cidade parecia recolher-se num cansaço sagrado. Mas, para um homem em especial, o silêncio do dia seguinte não era o fim; era o sinal de partida.

Chico Pegado ajustava as tiras da sandália de couro e olhava para o horizonte, onde a caatinga piauiense parecia tremer sob o primeiro mormaço da aurora que rompia. Ele conhecia o peso de cada quilômetro. Sabia que a fé, no sertão, não é um sentimento abstrato: ela se mede pela sola dos pés e pelo suor que escorre na testa.

— Vamos, minha gente. Santa Luzia está nos esperando — dizia ele, com aquela voz que não admitia desânimo.

Arrebanhar aquela turma era uma arte que Chico dominava sem esforço. Ele não oferecia facilidades. O que propunha era uma jornada de 15 a 20 quilômetros sob o despertar dos primeiros raios do sol implacável do Piauí, caminhando por estradas de piçarra e veredas onde a sombra era artigo de luxo. Mesmo assim, os romeiros vinham. Vinham os velhos que já haviam feito a rota dezenas de vezes, vinham os jovens que queriam testar as próprias forças, e vinham aqueles que carregavam no peito uma promessa secreta, dessas que só se resolvem caminhando.

O grupo partia. No início, os passos eram firmes, ritmados por conversas e memórias dos festejos que tinham acabado de viver em Bocaina. À medida que as horas avançavam, no entanto, a estrada começava a cobrar o seu preço. O calor subia do chão como um bafo quente. O cansaço pesava nos ombros, e as pernas pareciam pedir trégua.

Era nesses momentos que a figura de Chico Pegado crescia. Ele não ia à frente como um general isolado, nem atrás como um fiscal. Chico caminhava entre os seus. Olhava para o lado, percebia o passo mais lento de um, a respiração mais cansada de outro, e tirava do bolso uma palavra de incentivo, um canto de louvor ou uma história antiga para distrair a fadiga. Sob o seu comando silencioso, o esforço físico transformava-se em comunhão. Ninguém ficava para trás, porque a estrada pertencia a todos.

A caminhada não era apenas um deslocamento geográfico entre Bocaina e o povoado de Santa Luzia, na atual Sussuapara. Era uma transição da alma. Deixar uma festa para ir a outra era o jeito que aquele povo encontrava para prolongar o sagrado, para dizer ao tempo que a devoção não cabe em apenas dez dias de calendário.

Quando as primeiras casas de Santa Luzia finalmente surgiam no horizonte, o cansaço milagrosamente se dissipava. A poeira que cobria as roupas e os rostos dos romeiros já não parecia sujeira, mas uma marca de dignidade. Ao avistarem a capela da protetora dos olhos, os pés calejados encontravam um novo ritmo, embalados pelo badalar do sino que anunciava a chegada dos caminhantes de Bocaina.

Chico Pegado olhava para trás e sorria, vendo o grupo inteiro, exausto e radiante, cruzar a linha de chegada. Missão cumprida. Mais um ano a tradição estava salva, não porque estava escrita em livros, mas porque fora gravada na terra, passo a passo, pelo milagre da fé itinerante.