Chico Pegado e os Festejos de Santa Luzia.
A poeira fina que se levantava do
chão de Bocaina ainda guardava o cheiro de vela acesa e o eco dos hinos a Nossa
Senhora da Conceição. Era dia 13 de dezembro. A festa da padroeira
oficial terminara, e a cidade parecia recolher-se num cansaço sagrado. Mas,
para um homem em especial, o silêncio do dia seguinte não era o fim; era o
sinal de partida.
Chico Pegado ajustava as tiras da sandália de
couro e olhava para o horizonte, onde a caatinga piauiense parecia tremer sob o
primeiro mormaço da aurora que rompia. Ele conhecia o peso de cada quilômetro.
Sabia que a fé, no sertão, não é um sentimento abstrato: ela se mede pela sola
dos pés e pelo suor que escorre na testa.
— Vamos, minha gente. Santa Luzia
está nos esperando — dizia ele, com aquela voz que não admitia desânimo.
Arrebanhar aquela turma era uma
arte que Chico dominava sem esforço. Ele não oferecia facilidades. O que
propunha era uma jornada de 15 a 20 quilômetros sob o despertar dos
primeiros raios do sol implacável do Piauí, caminhando por estradas de piçarra
e veredas onde a sombra era artigo de luxo. Mesmo assim, os romeiros vinham.
Vinham os velhos que já haviam feito a rota dezenas de vezes, vinham os jovens
que queriam testar as próprias forças, e vinham aqueles que carregavam no peito
uma promessa secreta, dessas que só se resolvem caminhando.
O grupo partia. No início, os
passos eram firmes, ritmados por conversas e memórias dos festejos que tinham
acabado de viver em Bocaina. À medida que as horas avançavam, no entanto, a
estrada começava a cobrar o seu preço. O calor subia do chão como um bafo
quente. O cansaço pesava nos ombros, e as pernas pareciam pedir trégua.
Era nesses momentos que a figura
de Chico Pegado crescia. Ele não ia à frente como um general isolado, nem atrás
como um fiscal. Chico caminhava entre os seus. Olhava para o lado, percebia o
passo mais lento de um, a respiração mais cansada de outro, e tirava do bolso
uma palavra de incentivo, um canto de louvor ou uma história antiga para
distrair a fadiga. Sob o seu comando silencioso, o esforço físico transformava-se
em comunhão. Ninguém ficava para trás, porque a estrada pertencia a todos.
A caminhada não era apenas um
deslocamento geográfico entre Bocaina e o povoado de Santa Luzia, na atual
Sussuapara. Era uma transição da alma. Deixar uma festa para ir a outra era o
jeito que aquele povo encontrava para prolongar o sagrado, para dizer ao tempo
que a devoção não cabe em apenas dez dias de calendário.
Quando as primeiras casas de
Santa Luzia finalmente surgiam no horizonte, o cansaço milagrosamente se
dissipava. A poeira que cobria as roupas e os rostos dos romeiros já não
parecia sujeira, mas uma marca de dignidade. Ao avistarem a capela da protetora
dos olhos, os pés calejados encontravam um novo ritmo, embalados pelo badalar
do sino que anunciava a chegada dos caminhantes de Bocaina.
Chico Pegado olhava para trás e
sorria, vendo o grupo inteiro, exausto e radiante, cruzar a linha de chegada.
Missão cumprida. Mais um ano a tradição estava salva, não porque estava escrita
em livros, mas porque fora gravada na terra, passo a passo, pelo milagre da fé
itinerante.

