As Linfas de Dezembro: Memórias
das Férias em Bocaina
O tempo, em Bocaina no Piauí,
costumava ditar seu próprio ritmo pelas badaladas dos sinos e pelo cheiro da
terra molhada. Quando o calendário apontava o final de novembro, a cidade
inteira parecia suspirar em uma expectativa quase palpável. Era o início dos
tradicionais festejos de Nossa Senhora da Conceição, que de 29 de
novembro a 08 de dezembro vestiam a comunidade de fé, rezas e fitas
coloridas. Mas, para a garotada que assistia às missas com os olhos compridos
no horizonte, aquela festa não era apenas um ato de devoção; era o portal
sagrado que anunciava o início das férias.
Cúmplices desse sentimento, as
primeiras chuvas de dezembro não demoravam a dar o ar de sua graça. Vinham
mansas, mas carregadas de urgência, com aquele aroma inconfundível que só o
chão piauiense tem quando recebe o primeiro beijo do céu. Era o sinal que a
natureza dava para o espetáculo começar.
O palco dessa infância livre era
o Rio Guaribas. Naquele tempo, ele não era apenas um curso d'água; era
um regato cristalino, uma linfa generosa que passava nos arredores da cidade
saciando a sede física e a sede de poesia de seus moradores. As primeiras
enchentes chegavam com a missão de uma grande faxina: lavavam o talude com
força, arrastavam o passado e devolviam ao leito uma areia branca, pura,
transformando o rio num santuário de águas claras, salubres e convidativas.
Distantes do burburinho da cidade
— o que transformava cada caminhada numa verdadeira expedição —, os poços do
Rio Guaribas eram os tesouros escondidos que a meninada perseguia. Cada um
tinha seu nome, sua história e seus donos por direito de afeto.
Havia o Poço dos Vieiras,
o Poço de Joaquim Preto e o Poço de Aurora, espelhos d'água onde
o sol da tarde costumava mergulhar junto com os gritos e risadas da infância.
Mas nenhum deles guardava tanta magia quanto o Poço de Vicente Brito.
Foi exatamente ali, desafiando a gravidade e o medo, que o corpo aprendeu a
flutuar e os braços romperam a correnteza pela primeira vez. Aprender a nadar
naquelas águas era uma espécie de batismo pagão, um rito de passagem onde o
menino se tornava parte do próprio rio.
As férias de fim de ano iniciavam
um novo ciclo, e os dias passavam lentos, banhados em sol e água fresca, até a
chegada do novo ano. Olhando para trás, a distância daqueles poços já não
parece geográfica; é uma distância temporal. Mas basta fechar os olhos para que
o Rio Guaribas volte a correr cristalino na memória, provando que a infância em
Bocaina nunca deixou de ser pura poesia.

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