sábado, 17 de outubro de 2026

 

As Linfas de Dezembro: Memórias das Férias em Bocaina

O tempo, em Bocaina no Piauí, costumava ditar seu próprio ritmo pelas badaladas dos sinos e pelo cheiro da terra molhada. Quando o calendário apontava o final de novembro, a cidade inteira parecia suspirar em uma expectativa quase palpável. Era o início dos tradicionais festejos de Nossa Senhora da Conceição, que de 29 de novembro a 08 de dezembro vestiam a comunidade de fé, rezas e fitas coloridas. Mas, para a garotada que assistia às missas com os olhos compridos no horizonte, aquela festa não era apenas um ato de devoção; era o portal sagrado que anunciava o início das férias.

Cúmplices desse sentimento, as primeiras chuvas de dezembro não demoravam a dar o ar de sua graça. Vinham mansas, mas carregadas de urgência, com aquele aroma inconfundível que só o chão piauiense tem quando recebe o primeiro beijo do céu. Era o sinal que a natureza dava para o espetáculo começar.

O palco dessa infância livre era o Rio Guaribas. Naquele tempo, ele não era apenas um curso d'água; era um regato cristalino, uma linfa generosa que passava nos arredores da cidade saciando a sede física e a sede de poesia de seus moradores. As primeiras enchentes chegavam com a missão de uma grande faxina: lavavam o talude com força, arrastavam o passado e devolviam ao leito uma areia branca, pura, transformando o rio num santuário de águas claras, salubres e convidativas.

Distantes do burburinho da cidade — o que transformava cada caminhada numa verdadeira expedição —, os poços do Rio Guaribas eram os tesouros escondidos que a meninada perseguia. Cada um tinha seu nome, sua história e seus donos por direito de afeto.

Havia o Poço dos Vieiras, o Poço de Joaquim Preto e o Poço de Aurora, espelhos d'água onde o sol da tarde costumava mergulhar junto com os gritos e risadas da infância. Mas nenhum deles guardava tanta magia quanto o Poço de Vicente Brito. Foi exatamente ali, desafiando a gravidade e o medo, que o corpo aprendeu a flutuar e os braços romperam a correnteza pela primeira vez. Aprender a nadar naquelas águas era uma espécie de batismo pagão, um rito de passagem onde o menino se tornava parte do próprio rio.

As férias de fim de ano iniciavam um novo ciclo, e os dias passavam lentos, banhados em sol e água fresca, até a chegada do novo ano. Olhando para trás, a distância daqueles poços já não parece geográfica; é uma distância temporal. Mas basta fechar os olhos para que o Rio Guaribas volte a correr cristalino na memória, provando que a infância em Bocaina nunca deixou de ser pura poesia.

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário