sábado, 31 de outubro de 2026

 

Arte IA

O Esplendor da Serra Alta: Memórias de uma Infância no Sertão

Baseado nas memórias de infância em Bocaina, Piauí

No início de suas vidas, meu pai, Pedro Libório Leal, e minha mãe, Maria Aparecida Leal, tinham os olhos e o coração voltados para a terra. No semiárido piauiense, na região de Bocaina, o desejo profundo de ambos era um só: produzir, plantar e tanger o gado. A vida corria ao ritmo das estações, dividida entre as lavouras corriqueiras de feijão, milho e arroz, o perfume do alho e da cebola, e a moagem da cana-de-açúcar na Fazenda Baixa do Paulo, do compadre e amigo Antônio Delmira.

Mas havia um ritual sagrado que rompia a rotina do vale: a colheita da mandioca. No Nordeste, esse tempo ganha nome de festa e mutirão: é a "desmancha" ou a "farinhada".

Para realizá-la, subíamos a Serra Alta. Aos meus olhos de menino, aquele era o lugar mais bonito e aprazível do mundo. Um santuário esculpido em planícies, cânions profundos, olhos d’água e uma fauna viva, onde aves e animais silvestres enfeitavam a solidão do sertão.

Corriam os anos sessenta. A jornada começava em um comboio de treze animais, entre montarias e bestas de carga, carregados com os utensílios e mantimentos necessários para uma estadia de dez a doze dias no "Aviamento" — a Casa de Farinha de Chico Vitalino. No rastro dos cascos, seguia a nossa comitiva: meus pais, eu (então com dez anos), meus irmãos José, de oito, Antônio, de sete, e Minervina, de seis anos e Francisco no ventre de minha mãe. Unia-se a nós o primo Edimar, de apenas oito anos. Éramos um bando de crianças desbravando o mundo.

Ao chegarmos quase ao sopé da serra, nas terras de uma fazenda chamada Malhada, algo paralisou meu olhar: um pomar esplendoroso, completamente florido.

— Mãe, que flor bonita é aquela? — indaguei, apontando para a copa vibrante.
— Aquilo lá é um pé de Juá Francês! — respondeu prontamente a mãe sábia, com a precisão puramente nordestina e sertaneja.

Anos mais tarde, ao me debruçar sobre os alfarrábios e livros do mundo acadêmico, pude compreender e catalogar cientificamente a poesia de minha mãe. O tal "Juá Francês" era a Bougainvillea (ou primavera, três-marias, flor-de-papel). Uma trepadeira nativa da América do Sul cujo nome científico, ironicamente, homenageava o navegador e explorador francês Louis Antoine de Bougainville. Minha mãe, sem precisar de diplomas, unira a botânica e a história colonial em uma única e perfeita expressão popular.

Naqueles dias inesquecíveis em cima da serra, o trabalho também era uma forma de descoberta. Mesmo crianças, tínhamos nossas tarefas, sempre sob a vigilância de um adulto que atendia pelo epíteto de Pomenga.

Nossa missão diária era buscar água. Descíamos por um imenso e imponente cânion. Lá no fundo, corria um lindo regato de águas cristalinas, protegido por uma abóbada de árvores verdejantes. A copa densa filtrava a luz do sol, deixando passar apenas alguns raios que, ao tocarem a água, formavam um raro e belíssimo esplendor dourado. Ali, no olho d'água esquecido pelo tempo, enchíamos as "ancas" (ou ancoretas) e iniciávamos a subida de volta ao Aviamento.

Tanto na ida quanto na volta, a mata ganhava voz. Éramos surpreendidos pela imensa algazarra dos macacos Guaribas, que habitavam em bandos aquelas paragens. Para nós, crianças, o espetáculo era aterrorizante: os macacos simulavam ataques, quebravam gravetos e faziam um alarde estrondoso. Sentíamos o coração disparar, mas o guia Pomenga, nosso protetor e tradutor da natureza, nos acalmava com sua voz mansa:

— Fiquem quietos e sigam em frente. Eles estão apenas avisando que nós invadimos o território deles.

E assim, entre o respeito aos donos da mata e a lida diária na Casa de Farinhada — que para nós funcionava como um verdadeiro canteiro de inovações e novidades —, os dias se passavam. Vivíamos imersos em uma beleza indescritível, moldados pelo trabalho honesto de Pedro Libório e Maria Aparecida.

O tempo passou, a infância ficou na década de sessenta, mas a lida, o cheiro da manipueira, as cores do Juá Francês e o eco dos Guaribas no cânion ficaram cravados para sempre. Marcaram, de forma indelével, a tela mental da minha existência.