O Esplendor da Serra
Alta: Memórias de uma Infância no Sertão
Baseado nas memórias de
infância em Bocaina, Piauí
No início de suas vidas,
meu pai, Pedro Libório Leal, e minha mãe, Maria Aparecida Leal, tinham os olhos
e o coração voltados para a terra. No semiárido piauiense, na região de
Bocaina, o desejo profundo de ambos era um só: produzir, plantar e tanger o gado.
A vida corria ao ritmo das estações, dividida entre as lavouras corriqueiras de
feijão, milho e arroz, o perfume do alho e da cebola, e a moagem da
cana-de-açúcar na Fazenda Baixa do Paulo, do compadre e amigo Antônio Delmira.
Mas havia um ritual
sagrado que rompia a rotina do vale: a colheita da mandioca. No Nordeste, esse
tempo ganha nome de festa e mutirão: é a "desmancha" ou a
"farinhada".
Para realizá-la, subíamos
a Serra Alta. Aos meus olhos de menino, aquele era o lugar mais bonito e
aprazível do mundo. Um santuário esculpido em planícies, cânions profundos,
olhos d’água e uma fauna viva, onde aves e animais silvestres enfeitavam a solidão
do sertão.
Corriam os anos sessenta.
A jornada começava em um comboio de treze animais, entre montarias e bestas de
carga, carregados com os utensílios e mantimentos necessários para uma estadia
de dez a doze dias no "Aviamento" — a Casa de Farinha de Chico
Vitalino. No rastro dos cascos, seguia a nossa comitiva: meus pais, eu (então
com dez anos), meus irmãos José, de oito, Antônio, de sete, e Minervina, de
seis anos e Francisco no ventre de minha mãe. Unia-se a nós o primo Edimar, de
apenas oito anos. Éramos um bando de crianças desbravando o mundo.
Ao chegarmos quase ao
sopé da serra, nas terras de uma fazenda chamada Malhada, algo paralisou meu
olhar: um pomar esplendoroso, completamente florido.
— Mãe, que flor bonita
é aquela? — indaguei, apontando para a copa vibrante.
— Aquilo lá é um pé de Juá Francês! — respondeu prontamente a mãe sábia,
com a precisão puramente nordestina e sertaneja.
Anos mais tarde, ao me
debruçar sobre os alfarrábios e livros do mundo acadêmico, pude compreender e
catalogar cientificamente a poesia de minha mãe. O tal "Juá Francês"
era a Bougainvillea (ou primavera, três-marias, flor-de-papel). Uma
trepadeira nativa da América do Sul cujo nome científico, ironicamente,
homenageava o navegador e explorador francês Louis Antoine de Bougainville.
Minha mãe, sem precisar de diplomas, unira a botânica e a história colonial em
uma única e perfeita expressão popular.
Naqueles dias
inesquecíveis em cima da serra, o trabalho também era uma forma de descoberta.
Mesmo crianças, tínhamos nossas tarefas, sempre sob a vigilância de um adulto
que atendia pelo epíteto de Pomenga.
Nossa missão diária era
buscar água. Descíamos por um imenso e imponente cânion. Lá no fundo, corria um
lindo regato de águas cristalinas, protegido por uma abóbada de árvores
verdejantes. A copa densa filtrava a luz do sol, deixando passar apenas alguns
raios que, ao tocarem a água, formavam um raro e belíssimo esplendor dourado.
Ali, no olho d'água esquecido pelo tempo, enchíamos as "ancas" (ou
ancoretas) e iniciávamos a subida de volta ao Aviamento.
Tanto na ida quanto na
volta, a mata ganhava voz. Éramos surpreendidos pela imensa algazarra dos
macacos Guaribas, que habitavam em bandos aquelas paragens. Para nós, crianças,
o espetáculo era aterrorizante: os macacos simulavam ataques, quebravam gravetos
e faziam um alarde estrondoso. Sentíamos o coração disparar, mas o guia
Pomenga, nosso protetor e tradutor da natureza, nos acalmava com sua voz mansa:
— Fiquem quietos e
sigam em frente. Eles estão apenas avisando que nós invadimos o território
deles.
E assim, entre o respeito
aos donos da mata e a lida diária na Casa de Farinhada — que para nós
funcionava como um verdadeiro canteiro de inovações e novidades —, os dias se
passavam. Vivíamos imersos em uma beleza indescritível, moldados pelo trabalho
honesto de Pedro Libório e Maria Aparecida.
O tempo passou, a
infância ficou na década de sessenta, mas a lida, o cheiro da manipueira, as
cores do Juá Francês e o eco dos Guaribas no cânion ficaram cravados para
sempre. Marcaram, de forma indelével, a tela mental da minha existência.

