sexta-feira, 21 de agosto de 2026

 

Um São Gonçalo no Piancó

A dança de São Gonçalo é uma festividade tradicional do folclore brasileiro e português que mistura música, canto e dança. Ela serve para pagar promessas, agradecer por graças alcançadas ou pedir proteção ao santo.

A lenda diz que São Gonçalo de Amarante usava a dança para afastar o pecado e converter fiéis. Veio de Portugal e chegou ao Brasil no século XVIII e fincou raízes fortes no interior de regiões do Nordeste, incluindo outras regiões do Brasil.

Essa história quem me contou a cerca de sessenta anos atrás, foi um filho adotivo dos meus avós paternos, mas que sempre considerei como tio, seu nome era Francisco Leal Barros, mas que nós o chamávamos pelo epíteto de “Chico Pagado”.

Um São Gonçalo no Piancó

Corriam os anos sessenta. A poeira da estrada que liga a cidade à zona rural de Bocaina rumo a Malhada, assentava com a chegada da noite, mas na localidade de Piancó o movimento estava apenas começando. Ali, onde a fé ditava o ritmo da vida e a herança dos antepassados se mantinha viva, a sala da casa transformava-se no centro do universo. O altar para São Gonçalo reluzia sob a luz das velas, enfeitado com as cores vivas que contrastam com o cinza do sertão.

A expectativa aumentava com a chegada dos visitantes. Naquela noite, a comitiva vinha forte: Chico Pegado, conhecedor das gentes e das tradições da região, organizara uma turma boa lá em Bocaina para ir assistir ao folguedo. O grupo chegou trazendo fôlego novo e o respeito de quem sabe o valor de uma promessa bem paga. A presença daquela turma, guiada pelo entusiasmo de Chico, era a prova viva da "avença local" — aquele pacto sagrado e silencioso de solidariedade e devoção que mantinham o interior do Piauí unido pela tradição.

O som do terreiro mudou quando os tocadores deram os primeiros acordes nas violas. Duas filas de devotos se perfilaram diante do santo. Os passos firmes batiam no chão, levantando uma prece em forma de suor que os olhos atentos da turma de Chico Pegado acompanhavam com respeito e admiração. Cada cruzada de fila e cada reverência ao São Gonçalo de gesso representavam a gratidão de uma família por uma roça que vingou ou por uma saúde recuperada.

Quando a última jornada terminou e o santo foi passado de mão em mão para o beijo final, o sentimento era de missão cumprida. Naquela noite em Piancó, entre o estalar das violas e os passos rituais, a turma que Chico Pegado levou e testemunhou mais do que uma dança. Presenciou a alma sertaneja em sua forma mais pura: aquela que não se dobra à seca, mas se ajoelha com alegria diante da fé.

A propósito marcou presença na nossa tela mental uns versinhos dedicados a façanha de Chico Pegado sobre o que ele me contou sobre o São Gonçalo em Piancó:

Meu Senhor São Gonçalo,
Vós que sois tão milagreiro,
Abençoai os devotos
Que dançam no seu terreiro.

Eu vim pagar minha promessa,
Caminhei por essa estrada,
São Gonçalo nos ajudou,

Na saída e na chegada

Saindo lá de Bocaina,
Pela estrada de piçarra,
A turma veio caminhando,
Na fé ninguém desagarra.

Chico Pegado veio na frente,
Guiando os passos da gente,
Para ver em Piancó
Esse folguedo semente.

A viagem feita a pé,
Não dá cansaço nem dor,
São Gonçalo veio na frente
Cobrindo nós de amor.

Adeus, meu São Gonçalo,
Até o ano que vem,
Fica a avença em Piancó,
E a paz de Deus também.

 

 

 

 

Fragmentos da Pedra Ferrada

Diziam os antigos que ela sempre esteve ali, feito um gigante que errou o caminho e resolveu deitar-se no descampado. Com seus sete metros de largura e cinco de altura, a Pedra Ferrada é um enigma cercado pela caatinga por todos os lados. Quem olha de cima do seu cume tem vista privilegiada e até avista o Talhado Branco e a Serra da Cozinheira, as formações rochosas mais próximas, e não consegue deixar de perguntar: como esse bloco imenso foi parar ali, tão sozinho, isolado do resto do mundo de pedra?

Para a ciência, a resposta reside na paciência dos milênios. A chuva e o vento lavaram e continuam levando o solo ao redor, carregando embora as rochas mais fracas e deixando apenas aquele bloco teimoso e resistente como testemunha do tempo. Mas, para quem passa, a geologia cede espaço ao mistério. A rocha parece um monumento plantado por mãos invisíveis.

Houve um tempo em que a pedra falava. Suas paredes exibiam inscrições rupestres, traços e feridas deixados pelo buril de populações remotas. Eram registros de caça, rituais ou talvez apenas o desejo profundo daquelas pessoas de dizer "nós estivemos aqui". A pedra guardava o segredo de quem foram os primeiros habitantes de Bocaina, Piauí.

O tempo passou e a cidade de Bocaina cresceu, aproximando-se do gigante solitário. Com a proximidade, vieram novos visitantes. Infelizmente, as pegadas do homem moderno costumam ser mais destrutivas do que a erosão dos milênios. Munidas de pedaços de ferro e outros utensílios cortantes, dezenas de pessoas decidiram gravar na rocha suas próprias marcas. Iniciais de namorados, contornos de mãos e pés modernos sobrepuseram-se aos desenhos antigos.

O vandalismo, disfarçado de lembrança, silenciou o passado. Os traços que poderiam revelar mistérios científicos e guiar arqueólogos foram sufocados pelo egoísmo dos dias atuais. Hoje, a Pedra Ferrada continua ali, firme em sua solidão no meio do nada, mas carrega uma cicatriz dupla: o mistério de sua origem geológica e a marca triste da nossa própria ignorância.

Acho que a Pedra Ferrada representa um dos patrimônios culturais e geológicos mais intrigantes do município de Bocaina, no Piauí. Distante de outras formações rochosas conhecidas, como o Talhado Branco, Serra da Cozinheira etc., este bloco de pedra isolado desafia a paisagem local e desperta a curiosidade de moradores e visitantes. Mais do que um mistério geológico, a pedra funcionou como um santuário de registros rupestres, servindo de testemunha arqueológica das populações remotas que habitaram a região em épocas esquecidas.

Para a cidade de Bocaina, a Pedra Ferrada possui um valor imensurável como atrativo turístico diferenciado. Ela une a mística de sua origem inexplicável ao potencial de ecoturismo e turismo pedagógico. No entanto, a proximidade com a zona urbana trouxe o desafio da preservação, visto que inscrições modernas acabaram descaracterizando parte de sua riqueza científica. Valorizar a Pedra Ferrada é compreender a urgência de proteger nossa história, transformando o mistério em orgulho e conscientização para as futuras gerações.