quarta-feira, 5 de agosto de 2026



O dia em que o mundo quase acabou em Bocaina

Da redação *Firmino Leal

 

Em janeiro de 1960, as nuvens desabaram sobre Bocaina com uma fúria nunca antes vista no semiárido piauiense. O céu parecia um balde virado, e o barulho das goteiras nos telhados de barro soava como os tambores do próprio Juízo Final. Naquela cidade sem luz elétrica, onde a escuridão da noite engolia as calçadas, o medo era um terreno fértil. Bastou que três jovens peraltas plantassem o boato de que o mundo ia acabar em água para que a semente do pânico brotasse em cada quintal.

À meia-noite daquele janeiro cinzento, o plano dos moleques entrou em ação. Sorrateiros, eles escalaram a torre da igreja matriz, amarraram uma linha comprida e resistente no badalo do sino e correram para uma colina não muito distante. Escondidos na escuridão, puxaram o fio.

O primeiro "bão" ecoou no escuro, rasgando o silêncio da noite chuvosa. Depois outro, e mais outro.

O efeito foi imediato e avassalador. O badalar frenético fora de hora, misturado ao som dos trovões, transformou Bocaina em um grande confessionário a céu aberto. O povo saiu de casa de pijama, de camisola, arrastando os pés na lama da praça principal. Convictos de que a arca de Noé não passaria por ali, os moradores decidiram limpar a alma antes que a água cobrisse os umbrais das portas.

O alvoroço foi um festival de vergonhas expostas. Beatas recitavam o terço em velocidade recorde, engolindo as palavras entre as lágrimas. Vizinhos que não se falavam há décadas dividiram o mesmo guarda-chuva rasgado, chorando e pedindo perdão mútuo por roubos de galinhas e fofocas antigas. O mais bonito — e perigoso — aconteceu entre os casais: tomadas pelo pavor da fúria divina, mulheres se ajoelhavam na lama pedindo perdão aos maridos por deslizes do coração (e do corpo), enquanto pecadores convictos prometiam doar bodes, vacas e terras para a paróquia se escapassem daquela bacia de água. O sacristão, de pijama e com as mãos trêmulas, corria em círculos sem conseguir achar a chave da igreja trancada.

O tempo passou, o sino calou, a noite virou madrugada e, finalmente, o sol nasceu.

Quando o galo cantou no céu claro da manhã seguinte, o mundo continuava firme e forte. Nenhuma gota caía do céu. A lama da praça começou a secar, mas o constrangimento da cidade estava apenas começando. Os vizinhos se olhavam torto pelas frestas das janelas de madeira. O arrependimento da véspera virou um tremendo bode expiatório. "O que foi mesmo que eu te disse ontem à noite, meu bem?", pensavam os maridos, já arrependidos de terem sido tão compreensivos no escuro.

O mistério do fim do mundo durou pouco. Mais cedo, o sacristão finalmente subiu na torre e encontrou a prova do crime: uma indefectível linha de pescar amarrada no badalo pesado do sino. O rastro do barbante seguia direto, esticado pelo chão, até o topo da colina vizinha, onde pegadas frescas na lama entregavam o esconderijo dos três peraltas da cidade.

A revolta tomou o lugar do medo de Deus. Os pais dos rapazes prometeram surras históricas que ecoariam mais que o próprio sino. Bocaina descobriu que não era o fim do mundo, mas sim o começo de uma nova era: os três jovens viraram os heróis secretos de todos os solteiros e o eterno terror dos casados. A história da noite em que o sino tocou sozinho virou piada perpétua nas calçadas e bodegas do sertão, provando que, às vezes, basta um pedaço de barbante para fazer uma cidade inteira andar na linha.

·        *Escritor, pesquisador, criador de conteúdos, historiador, jornalista, bibliotecário.




A Cascata Quebra-Ovos

Da redação *Firmino Leal

A Cascata Quebra-Ovos foi um pequeno refúgio e correnteza de águas cristalinas e memórias afetivas no interior piauiense, cujo nome curioso guardava a simplicidade e o humor do povo da terra.

Dizia a gente antiga de Bocaina que o apelido de "Quebra-Ovos" nasceu da força traiçoeira e divertida daquela queda miúda, cujas pedras e terreno arenoso pareciam chocar inúmeros ninhos, os quais ao sofrerem o impacto da enxurrada os ovos eram quebrados pela força natural da queda d’agua.

Situava-se na passagem hoje da Rua São Pedro, rumo ao Riacho da Cabeluda ou os confins dos arredores da cidade.

O chão rachado do semiárido piauiense guardava a paciência dos séculos. Quando o céu de Bocaina finalmente desabava em pranto benfazejo, as águas de parte do alto da cidade ganhavam pressa e fúria. Desciam suaves ladeiras abaixo, desenhando caminhos na terra sedenta, até encontrarem o seu gargalo sagrado. Ali, naquele único ponto de passagem no baixo, entre a cidade e a chácara do mestre Zé Mariano, o tempo e a força da enxurrada esculpiram um milagre de pedra: a cascata Quebra-Ovos. Uma queda sutil, de escassos dois metros de altura, mas com a imponência de um templo erguido pela erosão de eras esquecidas. A água caía feito véu de noiva sobre um panelão de seis metros de diâmetro, um espelho circular onde o céu se mirava e celebrava a vida que brotava da enxurrada.

Mas o sertão é mestre em mudar de pele. Quando a estiagem voltava com seu sol de fogo, a música da água calava-se, dando lugar a um silêncio reverente. O panelão de pedra, no entanto, não morria; apenas mudava de vocação. Sob o frescor da sombra que restava na rocha, as galinhas da vizinhança encontravam o seu confessionário. Ali, longe dos olhos do mundo, criavam ninhos improvisados no chão poeirento. Onde antes a água batia com força, o mistério da vida se renovava na fragilidade de uma casca de ovo. Era o repouso das aves no coração da pedra.

Ao redor desse altar de pedra e mistério, a natureza do Piauí tecia sua mais bela moldura verde. As eras cobriam as encostas com um manto vivo, enquanto os ramos delicados do melão de São Caetano e as flores das Jitiranas entrelaçavam-se em um abraço perfumado. Nas bordas, canudos enfileiravam-se com uma simetria tão perfeita que desafiava o acaso. Não havia mão humana ali; cada folha, cada haste e cada flor pareciam ter sido plantadas meticulosamente pelos dedos do próprio Criador, desenhando uma pintura de paz e eternidade no meio do semiárido.

A natureza tem dessas peças que parecem brincadeira. Primeiro, ela oferece o canto fresco, a sombra mansa e o refúgio seguro para as aves chocarem. As galinhas acreditam na paz daquele poço de seis metros, cercado de verde e mato bom. Mas a terra tem seu tempo próprio. Quando o céu desaba em água no semiárido, a enxurrada descia brava, sem pedir licença para os sonhos das aves. O que era berço vira redemoinho. O nome fica gravado na rocha e na boca do povo como um lembrete: ali, quem dita a regra é o inverno.

Para os adultos, a cascata do Quebra-Ovos em Bocaina, Piauí, era apenas uma fonte não perene e humilde. Para as crianças da época, porém, aquele lugar era o maior espetáculo da Terra.

Aos meus olhos pequenos de vizinho e de quem a frequentava, aquela queda d'água sazonal parecia uma imensa e imponente catarata...

 *Escritor, pesquisador, criador de conteúdos, historiador, jornalista, bibliotecário.