quarta-feira, 5 de agosto de 2026

O dia em que o mundo quase acabou em Bocaina

Da redação *Firmino Leal


Em janeiro de 1960, as nuvens desabaram sobre Bocaina com uma fúria nunca antes vista no semiárido piauiense. O céu parecia um balde virado, e o barulho das goteiras nos telhados de barro soava como os tambores do próprio Juízo Final. Naquela cidade sem luz elétrica, onde a escuridão da noite engolia as calçadas, o medo era um terreno fértil. No Morro Grande belissima elevação situidada nos arredores da cidade, nos dias que antecendeream aporeraltice, uma enorme pedra desgarrou-se montantanha abaixo casando tremendo estoundo e de certo modo uma pequeno tremor de terra. Tuso isso, contribuiu para que três jovens peraltas plantassem o boato de que o mundo ia acabar em água, assim  a semente do pânico brotou em cada quintal, cada casa.

Um, certa  meia-noite daquele janeiro cinzento, o plano dos moleques entrou em ação. Sorrateiros, eles escalaram a torre da igreja matriz, amarraram uma linha comprida e resistente no badalo do sino e correram para um telhado não muito distante. Escondidos na escuridão, puxaram o fio.

O primeiro "bão" ecoou no escuro, rasgando o silêncio da noite chuvosa. Depois outro, e mais outro.

O efeito foi imediato e avassalador. O badalar frenético fora de hora, misturado ao som dos trovões, transformou Bocaina em um grande confessionário a céu aberto. O povo saiu de casa de pijama, de camisola, arrastando os pés na lama da praça principal. Convictos de que a arca de Noé não passaria por ali, os moradores decidiram limpar a alma antes que a água cobrisse os umbrais das portas.

O alvoroço foi um festival de vergonhas expostas. Beatas recitavam o terço em velocidade recorde, engolindo as palavras entre as lágrimas. Vizinhos que não se falavam há décadas dividiram o mesmo guarda-chuva rasgado, chorando e pedindo perdão mútuo por roubos de galinhas e fofocas antigas. O mais bonito — e perigoso — aconteceu entre os casais: tomadas pelo pavor da fúria divina, mulheres se ajoelhavam na lama pedindo perdão aos maridos por deslizes do coração (e do corpo), enquanto pecadores convictos prometiam doar bodes, vacas e terras para a paróquia se escapassem daquela bacia de água. O sacristão, de pijama e com as mãos trêmulas, corria em círculos sem conseguir achar a chave da igreja trancada.

O tempo passou, o sino calou, a noite virou madrugada e, finalmente, o sol nasceu.

Quando o galo cantou no céu claro da manhã seguinte, o mundo continuava firme e forte. Nenhuma gota caía do céu. A lama da praça começou a secar, mas o constrangimento da cidade estava apenas começando. Os vizinhos se olhavam torto pelas frestas das janelas de madeira. O arrependimento da véspera virou um tremendo bode expiatório. "O que foi mesmo que eu te disse ontem à noite, meu bem?", pensavam os maridos, já arrependidos de terem sido tão compreensivos no escuro.

O mistério do fim do mundo durou pouco. Mais cedo, o sacristão finalmente subiu na torre e encontrou a prova do crime: uma indefectível linha de pescar amarrada no badalo pesado do sino. O rastro do barbante seguia direto, esticado pelo chão, até o topo da de uma elevação vizinha, onde pegadas frescas na lama entregavam o esconderijo dos três peraltas da cidade.

A revolta tomou o lugar do medo de Deus. Os pais dos rapazes prometeram surras históricas que ecoariam mais que o próprio sino. Bocaina descobriu que não era o fim do mundo, mas sim o começo de uma nova era: os três jovens viraram os heróis secretos de todos os solteiros e o eterno terror dos casados. A história da noite em que o sino tocou sozinho virou piada perpétua nas calçadas e bodegas do sertão, provando que, às vezes, basta um pedaço de barbante para fazer uma cidade inteira andar na linha.

·        *Escritor, pesquisador, criador de conteúdos, historiador, jornalista, bibliotecário.





A Cascata Quebra-Ovos

Da redação *Firmino Leal

A Cascata Quebra-Ovos foi um pequeno refúgio e correnteza de águas cristalinas e memórias afetivas no interior piauiense, cujo nome curioso guardava a simplicidade e o humor do povo da terra.

Dizia a gente antiga de Bocaina que o apelido de "Quebra-Ovos" nasceu da força traiçoeira e divertida daquela queda miúda, cujas pedras e terreno arenoso pareciam chocar inúmeros ninhos, os quais ao sofrerem o impacto da enxurrada os ovos eram quebrados pela força natural da queda d’agua.

Situava-se na passagem hoje da Rua São Pedro, rumo ao Riacho da Cabeluda ou os confins dos arredores da cidade.

O chão rachado do semiárido piauiense guardava a paciência dos séculos. Quando o céu de Bocaina finalmente desabava em pranto benfazejo, as águas de parte do alto da cidade ganhavam pressa e fúria. Desciam suaves ladeiras abaixo, desenhando caminhos na terra sedenta, até encontrarem o seu gargalo sagrado. Ali, naquele único ponto de passagem no baixo, entre a cidade e a chácara do mestre Zé Mariano, o tempo e a força da enxurrada esculpiram um milagre de pedra: a cascata Quebra-Ovos. Uma queda sutil, de escassos dois metros de altura, mas com a imponência de um templo erguido pela erosão de eras esquecidas. A água caía feito véu de noiva sobre um panelão de seis metros de diâmetro, um espelho circular onde o céu se mirava e celebrava a vida que brotava da enxurrada.

Mas o sertão é mestre em mudar de pele. Quando a estiagem voltava com seu sol de fogo, a música da água calava-se, dando lugar a um silêncio reverente. O panelão de pedra, no entanto, não morria; apenas mudava de vocação. Sob o frescor da sombra que restava na rocha, as galinhas da vizinhança encontravam o seu confessionário. Ali, longe dos olhos do mundo, criavam ninhos improvisados no chão poeirento. Onde antes a água batia com força, o mistério da vida se renovava na fragilidade de uma casca de ovo. Era o repouso das aves no coração da pedra.

Ao redor desse altar de pedra e mistério, a natureza do Piauí tecia sua mais bela moldura verde. As eras cobriam as encostas com um manto vivo, enquanto os ramos delicados do melão de São Caetano e as flores das Jitiranas entrelaçavam-se em um abraço perfumado. Nas bordas, canudos enfileiravam-se com uma simetria tão perfeita que desafiava o acaso. Não havia mão humana ali; cada folha, cada haste e cada flor pareciam ter sido plantadas meticulosamente pelos dedos do próprio Criador, desenhando uma pintura de paz e eternidade no meio do semiárido.

A natureza tem dessas peças que parecem brincadeira. Primeiro, ela oferece o canto fresco, a sombra mansa e o refúgio seguro para as aves chocarem. As galinhas acreditam na paz daquele poço de seis metros, cercado de verde e mato bom. Mas a terra tem seu tempo próprio. Quando o céu desaba em água no semiárido, a enxurrada descia brava, sem pedir licença para os sonhos das aves. O que era berço vira redemoinho. O nome fica gravado na rocha e na boca do povo como um lembrete: ali, quem dita a regra é o inverno.

Para os adultos, a cascata do Quebra-Ovos em Bocaina, Piauí, era apenas uma fonte não perene e humilde. Para as crianças da época, porém, aquele lugar era o maior espetáculo da Terra.

Aos meus olhos pequenos de vizinho e de quem a frequentava, aquela queda d'água sazonal parecia uma imensa e imponente catarata...

 *Escritor, pesquisador, criador de conteúdos, historiador, jornalista, bibliotecário.


sábado, 11 de julho de 2026

 


Tributo a Francisco Nascimento de Souza

(Pendão de Souza) - *14/05/1950 +10/04/2019

Chico Libório e Firmino Leal

 

Não há como dissociar a infância dos filhos de Pedro Libório Leal e Maria Aparecida Leal de Pendão, como carinhosamente o tratamos. Ele é parte de nós, assim como sua irmã Francisca, seus descendentes e sua mãe Joaquina, que o recebeu no plano maior.


Esse amalgama feliz, remonta aos tempos dos nossos avós Firmino Borges Leal e Minervina Rosa Leal, quando os irmãos Selidônio, Alumínio, Helena e Joaquina, viviam sob a égide dos Borges Leal na centenária fazenda Lagoa Grande, zona rural de Bocaina, ou no casarão da família situado na Praça Borges Marinho Leal na sede daquele município.


Em 14 de maio de 1950, nascia em Bocaina, PI, aquele que recebeu na pia batismal o nome de Francisco Nascimento de Souza, para nós e para muitos, Pendão de Souza. Em meados dos anos cinquenta, a procura de uma vida melhor e principalmente em busca de trabalho sua mãe Joaquina, muda-se com os filhos: Francisca e Pendão para Picos, anos depois nós também mudamos.


Pendão tinha a particularidade de botar apelidos nas pessoas, principalmente em nós, vejamos: em sua irmã Francisca ele colocou o apelido de “Ziri”. Em Firmino filho mais velho de Libório e Aparecida, ele simples apelidou de “Formiguinha”. Assim foi com os demais. José ele apelidou de “Bogarim”. Antônio de “Sidola”. Minervina de “Teté” e Francisco de “Agabeúta”. Curiosamente os caçulas Nonata e Nonato ele não se atreveu a apelidar.


Outra particularidade de Pendão, a escolha de suas amizades. Era amigo de todos, porém primava pela escolha de pessoas que lhe eram gradas as quais ele as tinha como uma espécie de protetores: De Assis Lima, Adalberto Antônio de Lima, Cambito, Floro Bezerra, Dr. Helvídio, Dr. Zé Nunes, Zé Nery eram os seus preferidos.


Dele guardaremos imorredouras lembranças: sua bicicleta, onde aprendemos a pedalar, seu carrinho de madeira que servia de transporte e frete na feira de Picos onde ganhávamos uns trocados como ajudante.  Sua motocicleta e seu plangente violão onde aprendemos os primeiros acordes, exemplos: A Desconhecida e o Homem de Nazaré. Seu empreendedorismo aflorava a pele. Durante a semana vendia bananas no Ginásio Marcos Parente, e aos sábados como feirante mantinha a lida de vender cigarros e sandálias Wakiki na feira de Picos. Com ele aprendemos enfrentar os problemas da vida e hoje o que somos, aprendemos um pouco com ele.


Pendão também foi seresteiro e cantor. Junto ao intrépido Geraldo Pereira empreendeu importante projeto de gravação de um compacto simples, ocasião em que Geraldo compôs especialmente para ele gravar a bela canção “Exaltação ao Piauí”. Foi quando escolheu o nome artístico de Hilton Souza. Também participou ativamente dos programas de auditório das antigas rádios Luar do Sertão e Difusora comandados por “Seu Rocha” e Geraldo Pereira, além de Pendão de Souza foram calouros pioneiros: José Osvaldo Lavor e Guanambi Sonial, dentre outros... Além disso, como seresteiro, Pendão foi destaque da revista “Centenário de Picos”.


Para nós, fica a imagem e o exemplo do batalhador que a despeito da crueza e das dificuldades que a vida lhe impunha, era deficiente, nasceu com os “pés embolados”, ou seja, (talipes equinovarus) é um defeito congênito no qual os pés e os tornozelos estão torcidos ou fora de posição. Mesmo assim, seguia sempre à frente com honestidade e destemor e principalmente a crença de que não devemos desistir nunca de nossos sonhos.


Pendão lutou, estudou e venceu. No final dos anos setenta adentrou ao serviço público, mais precisamente na CIRETRAN de Picos. No inicio dos anos noventa, o então governador Antônio Almendra Freitas Neto, com certeza atendendo indicação de algum dos seus amigos importantes de Picos, o nomeou funcionário chefe do DETRAN de Picos.  O órgão encontrava-se, desorganizado, onde imperava a corrupção, a balburdia e desordem. Pendão moralizou e organizou a “repartição” como ele gostava de falar, tornando aquela CIRETRAN reconhecida, conceituada e destaque em todo Estado do Piaui.


Pendão durante sua existência terrena foi um homem bom, honrado, bom filho, bom pai e avô amoroso, sincero e leal amigo. Amante da música e crente em Deus.


Não! Não há partida capaz de exclui-lo de nossas vidas!

*Francisca, Firmino, José, Antônio, Minervina, Francisco, Nonata, Nonato. A sobrinha Francisca Maria e seus familiares. As filhas Rosângela e Karla e seus familiares...

 


quarta-feira, 6 de maio de 2026



O Velhinho da Estrada
Da redação *Firmino Leal

“O Velhinho da Estrada” era um andarilho misterioso que se tornou figura lendária no recuado ano de 1970. Seguindo uma rota sem planejamento preciso, ele passou por várias cidades do interior do Nordeste. Picos, no Piauí, por ser um entroncamento rodoviário foi palco natural da passagem desse personagem emblemático, que passou pela cidade exatamente na data de 10 de janeiro de 1970, dia sábado, dia principal de uma das maiores feiras livres do Nordeste te Brasileiro.
Ele nem era tão velho, mesmo assim ganhou o rótulo de “Velhinho da Estrada”. Vestido com indumentária simples composta por jaleco e calça rota rasgada e corroída pelo uso e pelo tempo, ele percorreu vários estados e suportou condições extremas de calor durante o período diurno e o desconforto do pouso no período noturno em locais não apropriados para o reparador descanso. Sua agenda rígida e resiliência lhe renderam admiração e curiosidade. Apesar de sua presença regular nas estradas que cortam o sertão, sua origem, verdadeira identidade, e motivos para viajar, eram até então, desconhecidos.
“O Velhinho da Estrada” raramente falava, não aceitava oferendas, comunicava-se em frases curtas, geralmente com crianças ou idosos, o que levou alguns a especular que poderia ser ele um “Santo” entre nós. Os moradores das cidades que margeavam as estradas por onde ele passava, o receberam calorosamente, oferecendo comida, leite e gentilezas. As crianças, especialmente, eram atraídas por ele, tratando sua passagem como um evento emocionante. Seu comportamento tranquilo e humilde, juntamente com sua extraordinária capacidade de suportar, deixou uma impressão duradoura naqueles que o conheceu. Diante do exposto, o cordão dos seus adoradores foi crescendo rapidamente. Para muitos, um milagreiro, um santo, um enviado de Deus.
Segundo a crônica local: “o caso cresceu tanto que chegou aos jornais de Teresina. Em razão disso, descobriu-se que “O Velhinho da Estrada”, a quem já se atribuíam inúmeros milagres, era apenas um doente mental foragido do Hospital Psiquiátrico Areolino de Abreu” de Teresina, capital do Piauí.
Desse fato é possível tirar-se muitas lições, a principal delas, a meu ver, é a fragilidade gritante do nosso povo sempre presa fácil nas mãos dos aproveitadores, ou estão à procura de um “Salvador da Pátria”. Para poucos, imagina-se então fosse ele um falastrão como tantos que vemos na política, prometendo milagres”.
Sobre o “Velhinho da Estrada”, acreditamos que sua jornada nos lembra que, mesmo diante da incerteza, a consistência e a resiliência podem deixar um legado significativo. "Às vezes, os maiores mistérios não estão nas respostas que buscamos, mas nas histórias duradouras que compartilhamos".
Nota do autor: Crônica extraída do livro Vozes da Ribeira
Fotos: História de Picos e INTERNET

*Escritor, pesquisador, criador de conteúdos, historiador, jornalista, bibliotecário.

quarta-feira, 19 de março de 2014

BODAS DE DIAMANTE de Pedro Libório Leal & Maria Aparecida Leal: uma história de amor e superação












Bodas de Diamante
Dia 19 de março do recuado ano de 1954, às 10 horas da manhã, na histórica Igreja de Nossa Senhora da Conceição em Bocaina, PI, se casaram Pedro Libório Leal e Maria Aparecida Leal. Como celebrante, o lendário e emblemático padre José Inácio de Jesus Madeira.

Os primeiros anos foram de muitas dificuldades, porém, o jovem casal mantinha-se, cheio de esperanças: ele com 19 anos, ela com 16. Primeiro, tiveram como moradia o velho casarão da família, situado à Praça Antônio Borges Leal Marinho, nas proximidades do adro da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, ali, nasceu o primeiro filho, Firmino.  Aparecida e Libório, jovens, inquietos, queriam produzir mais, lavrar, cuidar da terra, tanger o gado, fazer história. Então, foram morar na fazenda Lagoa Grande. Lá o casal viveu dias felizes, foram cinco anos de muito labor. No oitão ao norte da casa onde moravam, existia um lindo jasmineiro, curiosamente, floria o ano inteiro, talvez tenha servido de inspiração para esse amor florescer cada vez mais, tanto que, ali, naquele inesquecível lugar, nasceram mais quatro filhos: José, Antônio. Minervina e Francisco.

Em novembro de 1962, percebendo que o filho mais velho precisava entrar para escola, resolveram retornar para cidade, vieram novamente morar no velho casarão da família em Bocaina. Ali, nasceu Nonata, a sexta filha do casal. A vida prosseguia tênue, o cultivo na roça, a plantação do alho, a desmancha ou farinhada, a moagem da cana, o pequeno criatório de gado, animais de sela e carga, enfim, o labor no campo. Com o crescimento dos filhos, havia a necessidade de escolas mais avançadas, surge que, na emblemática data de 13 de maio de 1966, “Seu” Libório trouxe Dona Aparecida às pressas para dar à luz, lá antigo Hospital São Vicente de Paulo em Picos, sob a proteção de Jesus e a égide das mãos abençoadas do Dr. José Nunes de Barros, ao sétimo filho do casal, o caçula Nonato. Aparecida permaneceu 15 dias em convalescência, em seguida o casal voltou a Bocaina somente para providenciar a mudança para Picos, tanto que, no inicio do mês de junho de 1966, a família mudou-se para Picos, fincando aqui, profundas raízes. 

Logo que aportaram em Picos, chegaram também as dificuldades, morando como agregados em uma chácara, os afazeres eram em dobro, pois, além dos cuidados com os bens do patrão, era necessário o trabalho de sol a sol para o sustento da numerosa prole. Foi então, que mais uma vez Libório e Aparecida, num gesto de amor e desprendimento, resolveram conjuntamente vender seus bens em Bocaina para adquirir uma casa residencial em Picos. Foi uma decisão difícil, mesmo assim o fizeram, tanto que, em 1967, a família mudou-se para o nº 16 da antiga Vila Piau, depois denominada de Avenida Industrial e agora, registrada definitivamente como Rua Tininha de Sá Urtiga, onde moram até hoje.

Em Picos o casal continuou como dantes. Dona Aparecida ligada as prendas do lar e orientação dos filhos, na educação, na religiosidade na evangelização. Já “Seu” Libório foi um baluarte, homem de fibra, exerceu as mais variadas funções: foi lavrador, feirante, estivador, diarista, meeiro e arrendatário. Em 1978 entrou para o serviço público estadual, mais precisamente no IAPEP – Instituto Assistência e Previdência do Estado do Piauí, onde desenvolveu suas funções com espírito público, honradez e denodo zelo até aposentar-se. Mas dentre as atividades realizadas pelo fecundo trabalho de “Seu Libório, a que mais admiramos e nos orgulhamos, perpetuando moradia fixa em nossa tela mental, foi como exímio lavrador de alho no leito do velho e bondoso Rio Guaribas. “Seu” Libório trabalhava no manejo da terra com maestria, suas “parcelas” e “canteiros” eram verdadeiras obras de arte. Uma beleza!

Na data de 19 de março de 2004, voltaram à presença de Deus, novamente na histórica igreja de Nossa Senhora da Conceição em Bocaina, para na presença dos filhos, noras, genros e netos, amigos e familiares, receberem as bênçãos do padre Francisco Bezerra Neto, celebrante daquele segundo casamento, que socialmente chamamos de “Bodas de Ouro”, ou seja, cincoenta anos de casados. Hoje, acreditamos que Libório e Aparecida, estão realizados, há 60 anos esse amor tornou-se sólido e como diamante, foi lapidado. Como fruto desse amor, formou-se a grei dos “Libórios”: são sete filhos, quinze netos e uma bisneta, e hoje novamente na presença de todos, vêem solenemente, através do padre Francisco Pereira Borges, pedir a proteção e bênçãos de Deus, numa terceira celebração que a sociedade deu por nomenclatura: “Bodas de Diamante”.

Por causa de exemplos como o de Aparecida e Libório, acreditamos piamente no amor, na alma gêmea, no amor eterno. Que Deus continue a abençoá-los com todas as graças e bênçãos e que eles continuem sendo o exemplo de amor e doação e superação.

Obrigado Senhor Deus, por ter dado nós: filhos, netos, bisneta, noras, genros, familiares e amigos, o exemplo de honradez e fecundo amor. 

Recorremos neste momento a Escritura Sagrada, o livro dos livros: “E deixará a casa de teus pais e se unirão em uma só carne...” 

Assim eles fizeram: na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, amando e respeitando um ao outro com fidelidade e lealdade. Por isso, esse amor comemora suas Bodas de Diamante, pois diamante é para sempre, é eterno!!!.
Que Deus nos abençoe! Que Jesus nos proteja!

quinta-feira, 12 de abril de 2012

O Alto da Igreja

Foto: Firmino Libório Leal

Foto: Nonato Leal
Bucólico recanto de minha aldeia, ainda verdejante e ricamente bordejado por árvores que predominavam o bioma.  É a parte detrás do Adro da Igreja de Nossa Senhora Imaculada Conceição no município de Bocaina, Piauí. Ali naquele minúsculo mirante, vivi os melhores folguedos de minha infância.     
             

Bocaina, berço indelével. A cada janeiro que passa, busco visitar esta terra abençoada. Durante os meus passeios, caminho lento, analisando a vegetação que margeia as estradas, encostas, caminhos e veredas. Extasio-me ante a majestosa caatinga. O verde, a policromia das cores; deslumbro-me com a disposição das serras, morros, montes e morrotes. Com o rio que, mesmo tênue e agonizante ainda lembra seu antigo esplendor. Com as águas  plácidas    e límpidas do açude Bocaina.                    
                                                            
Ao longe, os morros cobertos pela vegetação e uma capoeira aqui, outra ali, onde tenho o panorama do horizonte que me rodeia e encanta. Ora campos bem cuidados de pleno viço. Ora uma hera, com flores abundantes e lilases que matizam contrastando com o verde em vários tons, é a jitirana em flor.

Enquanto isso, no adro da igreja de suave ladeira, quando a aurora rompe abraçando o sol, vejo pessoas que se dirigem ao labor diário, para o trabalho no arrebol.

Essa é a visão que tenho do Alto da Igreja de Bocaina. São campos, árvores e flores que recamam o solo ardente do semiárido, sem que elas soltem um gemido de dor ou reclamem, após terem enfeitado nossa aléia que, a cada inverno se renova, renovação esta que nos inspira a paz, a fé e o amor à vida.

Na data de 10 de abril de cada ano, os bocainenses se juntam jubilosos em comemoração ao aniversário de emancipação político-administrativo do município. Nesta data tão auspiciosa, deixo o meu fraternal abraço aos meus irmãos e conterrâneos, com certeza de que, a cada ano que passa, aumenta minha fé de que mantenho com a terra berço, laços indestrutíveis amor e apreço.

Feliz Aniversário, Bocaina!!!

quinta-feira, 3 de março de 2011

Bocaina e Santo Antônio de Lisboa desfrutam o mesmo “berço embalador da esperança”

Foto: Praça Borges, Marinho-Bocaina -PI - Foto: Firmino Libório Leal
Foto: SantoAntônio de Lisboa-PI - Foto: Firmino Libório leal
Tenho afirmado sempre nas pálidas crônicas que escrevo que uma vez por ano vou ao Piauí para “respirar”. O que me encanta nesta caminhada é que muitas vezes encontro amigos bondosos que, com dedicação, competência e extremado amor, se comprometem a divulgar e fomentar os movimentos culturais de nossa terra.
                                                        
Pois bem: em 22 de janeiro passado, diletos amigos me convidaram a pisar novamente em solo lisboense. Feliz, afirmei que sim; porém, alertei que faria o trajeto através de Bocaina, minha terra natal. O motivo da visita seria um convescote, um folguedo ou quem sabe um Jaburu. De qualquer forma, já tinha em mente ir a Santo Antônio retribuir a maneira fidalga e hospitaleira como fui recebido quando lá estive em janeiro de 2010.
                                
Parti célere, em direção a Bocaina. Lá chegando, visitei parentes, o mercado público, praças; percorri ruas, becos e ladeiras. Contemplei a casa onde nasci; e, do alto da ermida construída por meus ancestrais, avistei as colinas distantes; por último desfrutei do refrigério das plácidas águas do Açude Bocaina. Todas situações vividas com muita emoção.                                                

No trajeto de Bocaina a Santo Antônio minha esposa Rosângela e eu fomos capitaneados pelos primos Jonnes e Hercilia Barros. O percurso foi escolhido com esmero, pois queria percorrer um caminho que há anos não fazia. Rever o sopé do Morro Grande, a caatinga verdejante; descer a Ladeira da Andorinha e cruzar o Riachão, que tênue e agonizante ainda relembra seu antigo esplendor.

Era uma tarde agradabilíssima. O firmamento anunciava um nevoeiro fino e persistente, tornando o clima suave, ameno. Foi nesse cenário que percorri Santo Antônio, seu belo casario, a igreja, a praça; enfim, visitei amigos e aparentados. Ali, naquele ambiente bucólico, fui recebido por eminente comitiva formada por Antônio Bineta; musicista, poeta, compositor. Dele recebi de presente um CD com o Hino Oficial de Santo Antônio, com direito a autógrafo e tudo o mais, e ainda a afirmação de que sou seu sobrinho... confesso: uma lágrima rolou; Assis Britto e Lucídio Cipriano: quanta fraternidade! João da Barba (o Rolando Boldrim do Piauí), contador de causos, que juntamente com seus familiares nos receberam em sua residência com hospitalidade e cortesia. Aquele maravilhoso ensejo foi encerrado com muitos causos, anedotas e relatos de acontecidos regados a Cajuína Cristalina (não em Teresina, como na canção), mas sim em Santo Antônio de Lisboa Capital Nacional do Caju.

Numa de minhas oitivas, lembrei a todos de como a história é sapiente. Vejamos: a outrora fazenda Boqueirão, hoje município de Bocaina, enviou um dos seus filhos, Pedro de Sousa Britto, para ser o desbravador da fazenda Arrodeador, hoje a pujante Santo Antônio. E agora a história se repete: Santo Antônio enviou a Bocaina dois filhos: o poeta Valentim Neto e Antônio Bineta, musicista e arranjador para, juntos, comporem o hino oficial da lendária urbe. Por isso, meus amigos e conterrâneos, eu vos afirmo sem receio: Bocaina e Santo Antônio de Lisboa no Piauí desfrutam o mesmo “berço embalador da esperança”.

“Da minha aldeia vejo o quanto se pode ver o universo. Por isso, a minha aldeia é tão grande como outra qualquer”. (Fernando Pessoa).