quinta-feira, 12 de abril de 2012

O Alto da Igreja









O Alto da Igreja

Bocaina, não é apenas um ponto geográfico no mapa do Piauí; é o meridiano onde a minha infância fincou raízes e decidiu morar para sempre. Há um recanto bucólico ali, atrás do Adro da Igreja de Nossa Senhora Imaculada Conceição, que o tempo não ousa apagar. Ainda hoje, quando fecho os olhos, sinto o abraço verdejante das árvores que teimam em saudar o céu, sentinelas daquele minúsculo mirante onde vivi os melhores e mais puros folguedos do meu amanhecer. Bocaina é meu berço indelével, o chão sagrado ao qual meu coração pontualmente regressa. 

A cada janeiro que desponta, sou empurrado por uma força invisível e terna a visitar esta terra abençoada. Meus passos, outrora apressados pela meninice, agora são lentos, quase rituais. Caminho decifrando a vegetação que margeia as estradas, as encostas e as veredas, como quem lê as linhas da palma da própria mão. É quando me extasio diante da majestosa Caatinga. Há quem a veja seca, mas eu a vejo soberana, dona de uma policromia única que se desdobra na disposição caprichosa das serras, morros e morrotes.

O rio, hoje tênue e agonizante, corre como um fio de memória que teima em não esquecer seu antigo esplendor. Em contrapartida, o Açude Bocaina repousa em águas plácidas e límpidas, espelhando o horizonte. Mais adiante, a capoeira pontua a paisagem e me oferece o panorama completo de um horizonte que me rodeia e encanta. Ora sou testemunha de campos bem cuidados, cheios de pleno viço; ora sou surpreendido pela jitirana em flor — uma hera de floração abundante e lilás que matiza o cenário, contrastando poeticamente com os múltiplos tons de verde.

Enquanto a natureza encena seu espetáculo silencioso, o Adro da Igreja, com sua suave ladeira, testemunha o teatro humano. Quando a aurora rompe o manto da noite e abraça o sol, vejo os filhos da terra caminhando para o labor diário. Homens e mulheres que se movem no arrebol, rostos moldados pela dignidade do trabalho.

Essa é a visão perene que carrego do Alto da Igreja de Bocaina. Campos, árvores e flores que recamam o solo ardente do semiárido. O que mais me comove é o silêncio resignado dessa flora: elas não soltam um gemido de dor, não reclamam do calor que crepita sob o chão. Apenas esperam. Sabem que a cada inverno a promessa da chuva se cumpre e tudo se renova. Essa renovação cíclica e milagrosa é o que nos devolve a paz, a fé e o amor à vida. 

Por isso, quando chega o dia dez de abril, o peito aperta e se expande ao mesmo tempo. É a data em que os bocainenses se juntam jubilosos para comemorar a emancipação político-administrativa do município. Neste dia tão auspicioso, cruzo as distâncias e envio o meu mais fraternal abraço aos meus irmãos e conterrâneos. Faço-o com a certeza inabalável de que os anos podem passar, o rio pode silenciar e a poeira pode subir, mas a minha fé permanece intacta. Os laços que me unem a este berço são feitos de amor, apreço e eternidade.

Feliz Aniversário, Bocaina!!!