quarta-feira, 6 de maio de 2026



O Velhinho da Estrada
Da redação *Firmino Leal

“O Velhinho da Estrada” era um andarilho misterioso que se tornou figura lendária no recuado ano de 1970. Seguindo uma rota sem planejamento preciso, ele passou por várias cidades do interior do Nordeste. Picos, no Piauí, por ser um entroncamento rodoviário foi palco natural da passagem desse personagem emblemático, que passou pela cidade exatamente na data de 10 de janeiro de 1970, dia sábado, dia principal de uma das maiores feiras livres do Nordeste te Brasileiro.
Ele nem era tão velho, mesmo assim ganhou o rótulo de “Velhinho da Estrada”. Vestido com indumentária simples composta por jaleco e calça rota rasgada e corroída pelo uso e pelo tempo, ele percorreu vários estados e suportou condições extremas de calor durante o período diurno e o desconforto do pouso no período noturno em locais não apropriados para o reparador descanso. Sua agenda rígida e resiliência lhe renderam admiração e curiosidade. Apesar de sua presença regular nas estradas que cortam o sertão, sua origem, verdadeira identidade, e motivos para viajar, eram até então, desconhecidos.
“O Velhinho da Estrada” raramente falava, não aceitava oferendas, comunicava-se em frases curtas, geralmente com crianças ou idosos, o que levou alguns a especular que poderia ser ele um “Santo” entre nós. Os moradores das cidades que margeavam as estradas por onde ele passava, o receberam calorosamente, oferecendo comida, leite e gentilezas. As crianças, especialmente, eram atraídas por ele, tratando sua passagem como um evento emocionante. Seu comportamento tranquilo e humilde, juntamente com sua extraordinária capacidade de suportar, deixou uma impressão duradoura naqueles que o conheceu. Diante do exposto, o cordão dos seus adoradores foi crescendo rapidamente. Para muitos, um milagreiro, um santo, um enviado de Deus.
Segundo a crônica local: “o caso cresceu tanto que chegou aos jornais de Teresina. Em razão disso, descobriu-se que “O Velhinho da Estrada”, a quem já se atribuíam inúmeros milagres, era apenas um doente mental foragido do Hospital Psiquiátrico Areolino de Abreu” de Teresina, capital do Piauí.
Desse fato é possível tirar-se muitas lições, a principal delas, a meu ver, é a fragilidade gritante do nosso povo sempre presa fácil nas mãos dos aproveitadores, ou estão à procura de um “Salvador da Pátria”. Para poucos, imagina-se então fosse ele um falastrão como tantos que vemos na política, prometendo milagres”.
Sobre o “Velhinho da Estrada”, acreditamos que sua jornada nos lembra que, mesmo diante da incerteza, a consistência e a resiliência podem deixar um legado significativo. "Às vezes, os maiores mistérios não estão nas respostas que buscamos, mas nas histórias duradouras que compartilhamos".
Nota do autor: Crônica extraída do livro Vozes da Ribeira
Fotos: História de Picos e INTERNET

*Escritor, pesquisador, criador de conteúdos, historiador, jornalista, bibliotecário.

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