O dia em que o mundo quase acabou
em Bocaina
Da redação *Firmino Leal
Em janeiro de 1960, as nuvens
desabaram sobre Bocaina com uma fúria nunca antes vista no semiárido piauiense.
O céu parecia um balde virado, e o barulho das goteiras nos telhados de barro
soava como os tambores do próprio Juízo Final. Naquela cidade sem luz elétrica,
onde a escuridão da noite engolia as calçadas, o medo era um terreno fértil.
Bastou que três jovens peraltas plantassem o boato de que o mundo ia acabar em
água para que a semente do pânico brotasse em cada quintal.
À meia-noite daquele janeiro
cinzento, o plano dos moleques entrou em ação. Sorrateiros, eles escalaram a
torre da igreja matriz, amarraram uma linha comprida e resistente no badalo do
sino e correram para uma colina não muito distante. Escondidos na escuridão,
puxaram o fio.
O primeiro "bão" ecoou
no escuro, rasgando o silêncio da noite chuvosa. Depois outro, e mais outro.
O efeito foi imediato e
avassalador. O badalar frenético fora de hora, misturado ao som dos trovões,
transformou Bocaina em um grande confessionário a céu aberto. O povo saiu de
casa de pijama, de camisola, arrastando os pés na lama da praça principal.
Convictos de que a arca de Noé não passaria por ali, os moradores decidiram
limpar a alma antes que a água cobrisse os umbrais das portas.
O alvoroço foi um festival de
vergonhas expostas. Beatas recitavam o terço em velocidade recorde, engolindo
as palavras entre as lágrimas. Vizinhos que não se falavam há décadas dividiram
o mesmo guarda-chuva rasgado, chorando e pedindo perdão mútuo por roubos de
galinhas e fofocas antigas. O mais bonito — e perigoso — aconteceu entre os
casais: tomadas pelo pavor da fúria divina, mulheres se ajoelhavam na lama
pedindo perdão aos maridos por deslizes do coração (e do corpo), enquanto pecadores
convictos prometiam doar bodes, vacas e terras para a paróquia se escapassem
daquela bacia de água. O sacristão, de pijama e com as mãos trêmulas, corria em
círculos sem conseguir achar a chave da igreja trancada.
O tempo passou, o sino calou, a
noite virou madrugada e, finalmente, o sol nasceu.
Quando o galo cantou no céu claro
da manhã seguinte, o mundo continuava firme e forte. Nenhuma gota caía do céu.
A lama da praça começou a secar, mas o constrangimento da cidade estava apenas
começando. Os vizinhos se olhavam torto pelas frestas das janelas de madeira. O
arrependimento da véspera virou um tremendo bode expiatório. "O que foi
mesmo que eu te disse ontem à noite, meu bem?", pensavam os maridos, já
arrependidos de terem sido tão compreensivos no escuro.
O mistério do fim do mundo durou
pouco. Mais cedo, o sacristão finalmente subiu na torre e encontrou a prova do
crime: uma indefectível linha de pescar amarrada no badalo pesado do sino. O
rastro do barbante seguia direto, esticado pelo chão, até o topo da colina
vizinha, onde pegadas frescas na lama entregavam o esconderijo dos três
peraltas da cidade.
A revolta tomou o lugar do medo
de Deus. Os pais dos rapazes prometeram surras históricas que ecoariam mais que
o próprio sino. Bocaina descobriu que não era o fim do mundo, mas sim o começo
de uma nova era: os três jovens viraram os heróis secretos de todos os
solteiros e o eterno terror dos casados. A história da noite em que o sino
tocou sozinho virou piada perpétua nas calçadas e bodegas do sertão, provando
que, às vezes, basta um pedaço de barbante para fazer uma cidade inteira andar
na linha.
·
*Escritor,
pesquisador, criador de conteúdos, historiador, jornalista, bibliotecário.
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